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Em Fort Lauderdale, a vida se passa à beira-mar. Ou à beira-canal, digamos assim. São quase 40 quilômetros de faixa de areia banhada pelo Atlântico na região do condado de Broward, e 13 vezes essa extensão só em canais, totalizando 500 quilômetros de hidrovias. Não à toa, a cidade ao norte de Miami tem um dos três maiores portos do mundo, o Everglades, que recebe 3,7 milhões de passageiros ao ano, entre embarques e desembarques. Se a vida a bordo está mais do que consagrada na Veneza americana, a vida em terra firme se dinamiza inspirada pela vizinha mais famosa, transbordando de novos visitantes ligados ao mundo da arte.

Comenta-se entre os locais que já nem mais é preciso pegar o carro para ir até Miami para ver o que há de novo, tantas são as novidades no clássico Las Olas Boulevard, avenida arborizada em área central que concentra bares, restaurantes, galerias e lojinhas. Na lista, que cresce a cada mês, há um bar em que os clientes têm à mesa as próprias torneiras de chope, automatizadas para contabilizar o consumo; um pub que usa galinha caipira (free range) e oferece molho de espinafre orgânico de aperitivo para harmonizar com uma forte carta de cervejas; uma loja de queijos que aluga uma cesta de piqueniques repleta de gostosuras; uma loja dedicada à modelagem dos anos 1950, inspirada na série de TV “Mad men” e na performer Dita von Tesse.

Ainda na área central, inspirada no bairro de Wynwood, em Miami, também está em ascensão o Fat Village, enclave hipster da cidade, com vários escritórios de arquitetura, design e publicidade, além de ateliês e murais de arte de rua.

Quando uma loja de vestidos de noiva fechou as portas em Las Olas Boulevard, os sócios Paul Greenberg e Rick Mijares decidiram transformar o lugar em bar. Aberto no ano passado, o American Social tem o estilo de um bar de esportes, com 14 telas de televisão, decorado com capas famosas da revista “Life” e mesas rodeadas por confortáveis sofás. Mas o que o torna único, na realidade, é a inspiração irlandesa. Do Reino Unido, os donos importaram um sistema de torneiras de chope para as mesas. Cada uma tem quatro rótulos, que são trocados frequentemente. As torneiras contabilizam automaticamente a quantidade de chope entornado, e também da sidra, fermentado de maçã, que anda na moda por lá.

O curso pode se aprofundar, então, no balcão. Há 46 rótulos na torneira, dos clássicos europeus (Chimay, Hoegaarden, Guinness) às já consagradas artesanais americanas, como Magic Hat, Harpoon, Dogfish e Sierra Nevada. Quem quiser levar um barrilzinho para o barco (já que estamos na Veneza americana), pode carregá-los numa outra estação com rótulos da Cigar City, de Tampa, na Flórida.

Aliás, quem for fazer compras para um dia no mar deve passar na padaria Gran Forno. Eles fornecem pães aos melhores restaurantes e hotéis e têm uma variedade de doces com base de fruta e cookies integrais frescos.

Inclua mais uma parada nos preparativos na Cheese Culture, loja de queijos e vinhos que inclusive aluga por 24 horas uma cesta de piquenique (US$ 75), com embutidos, queijos, uma garrafa de vinho, uma baguete e frutas. À noite, a loja promove degustações de queijos e vinhos.

Em uma das mais novas adições à noite de Las Olas, pode-se provar a local Fort Lauder Ale orgânica, de uma microcervejaria fundada há um ano na cidade. O pub The Royal Pig fica em frente à noitada Yolo, e se tornou a melhor opção para quem prefere música em volume menos violento aos ouvidos. A carta de cervejas e drinques convida a uma prospecção cuidadosa — e o mesmo se pode dizer do menu, com uma proposta de comida de pub que às vezes beira o saudável, com peixe frescos grelhados, saladas, galinha caipira e espinafre orgânico de aperitivo, sem esquecer as costelas de porco e hambúrgueres fartos. The Royal Pig é o que era há cinco anos o ainda convidativo Big City — a quem se pode recorrer caso o novo bar esteja lotado.

Já na cena gastronômica, a melhor novidade é o Lobster Bar Sea Grille. O destaque neste bar não são as cervejas, mas os frutos do mar no gelo, em cores intensas. A lagosta dá nome ao restaurante, e é uma aposta mais do que garantida. Mas os mexilhões em molho de vinho branco também valem a pena. E outra ótima pedida na casa são os peixes — da Flórida, tem o pompano e o red snapper — servidos inteiros com couve, quinoa, limão e alcaparras, deliciosos.

Não só de comes e bebes vive Las Olas. Lojinhas simpáticas ajudam a gastar calorias. Duro será entrar nas cinturinhas anos 1950 que a loja Bettie Page oferece em seus vestidos, maiôs, shorts de cintura alta e outras peças que as personagens de “Mad men” usariam. No final da avenida, está o Museu de Arte de Fort Lauderdale com boas exposições temporárias. Estreia no dia 17 deste mês uma mostra de fotos e palestras sobre o movimento dos direitos civis.

Arte de rua em meio a escritórios e ateliês em Fat Village

O muro cinza do C&I Studio atrai os olhos porque está entre vários murais coloridos. É um sábado à tarde, e uma dupla de profissionais se dedica a uma campanha de moda. Mas isso não impede que Joshua Miller, diretor da agência de mídia especializada em vídeos e fotografia, nos leve até o espaço vizinho, batizado casualmente de Next Door. Ali, há um café e bar e um lugar cooperativo de artes. O lado criativo é iluminado enquanto o do café é escurinho e destaca a decoração.

Um vagão de trem prateado serve de armazém para a nova unidade do Brew Urban Café, que nas noites de sextas-feiras, sábados e de jogos do Miami Heat se transforma em bar. As prateleiras guardam cafés, cervejas e uma coleção de livros. Era o que faltava no Fat Village — bairro que concentra empresas de mídia, ateliês e galerias.

Quando os jornais locais noticiaram a abertura da nova casa de Miller, o comentário era “nem parece Fort Lauderdale!”. Mas Miller, que antes morava em Washington DC, é um dos maiores defensores do bairro. Já era um agitador cultural, promovendo quase toda semana no C&I sessões de filmes por US$ 1 e churrascos. O escritório também participa da Art Walk, que envolve boa parte das empresas no bairro e ocorre todo último sábado do mês (o próximo é dia 25), quando estúdios emprestam seu espaço para palestras, exposições e outras atividades.

O Fat Village (Flager Arts Technology) parece mesmo uma vila, onde todos se conhecem e trabalham juntos. No início, a ideia de Doug McCraw, que aluga as áreas, era criar um bairro de empresas de tecnologia. Porém, com a bolha da internet em 2001, teve que repensar o projeto. Viu o bairro de Wynwood se desenvolvendo em Miami e decidiu fazer o mesmo em Fort Lauderdale: apostar em artistas.

Seu primeiro inquilino fabricava marionetes e se encantou pelo espaço amplo dos galpões. Logo, vieram mais artistas, galerias, grafiteiros e escritórios. Alguns prédios residenciais nos arredores contribuíram para aumentar o movimento nos fins de semana. Outros escritórios que participam da Art Walk são o Cadence, de arquitetura, e o Helium.

Uma das primeiras iniciativas do Cadence, liderada pela arquiteta Rebecca Bradley, foi um evento chamado “Better Block”, que ocorre em outras cidades americanas e convida a sociedade a imaginar maneiras de melhorar o bairro. O Cadence encheu as ruas de jardins temporários, convidou DJs, foodtrucks e fez a festa. A partir disso, surgiu um projeto de jardim comunitário, que ganhou um terreno da igreja luterana e projeto do Candence, lançado com apoio da rede de supermercado Whole Foods. A área verde não será dedicada só a plantas ornamentais como também a hortas dos moradores. Rebecca lançou outro projeto ano passado com vários pianos espalhados pela cidade, convidando a tocar uma melodia no caminho. Já os vizinhos do Helium tocam um escritório de design comercial onde só trabalham artistas. A arte não-comissionada vai para as paredes e ganha visibilidade nas art walks realizadas a cada mês.

A galeria de maior destaque na região é a The Projects North, que em novembro montou uma exposição para o mexicano Dia dos Mortos com obras surrealistas de artistas jovens. Também tem a The Projects South e a The Rolling Stock, esta, especializada em arte de rua. Embora os murais de Fort Lauderdale não tenham assinaturas de grandes nomes internacionais como em Wynwood, também chamam a atenção. O Andrews Living Arts possui um teatro com peças de vanguarda a preços irrisórios, bancado pelo aluguel da área dos fundos, toda grafitada, para eventos corporativos.

Os food trucks do centro e de Miami já colocaram o Fat Village no itinerário. Quem aparece sempre por lá é o Frankie Dogs, com salsichas artesanais e opções vegetarianas que incluem combinações com jalapeño, chucrute, queijo azul e cebolas caramelizadas por US$ 5.